Liberdade de escolha ou acto desumano? Bom ou mau? Certo ou errado?
Arte é arte, mas nem sempre se vê o que se passa nela. Um quadro não é apenas cores e forma, mas história. Há anos que, em Portugal, é evidente o sofrimento das mulheres: as ricas vão abortar ao estrangeiro, as pobres não podem. É inacreditável considerar criminosas mulheres que praticam um aborto. Há anos que, em Portugal, é evidente o sofrimento das mulheres: as ricas vão abortar ao estrangeiro, as pobres não podem. É inacreditável considerar criminosas mulheres que praticam um aborto.
As mulheres estão sobrecarregadíssimas: têm o seu emprego, a responsabilidade da gravidez e, depois, ainda são donas de casa. A questão do aborto insere-se em todo esse contexto violento.
Um aborto ou interrupção da gravidez é a remoção ou expulsão prematura de um embrião ou feto do útero, resultando na sua morte ou sendo por esta causada, isto pode ocorrer de forma espontânea ou artificial, provocando-se o fim da gestação, e consequentemente o fim da vida do feto, mediante técnicas médicas, cirúrgicas entre outras.
Através da história, o aborto foi provocado por vários métodos diferentes e seus aspectos morais, éticos, legais e religiosos são objecto de intenso debate em diversas partes do mundo.
É possível perceber no rosto desta mulher a dor, o sofrimento, a profunda tristeza após tão bárbaro acto. É visível uma bacia branca, sinal de pureza, toda manchada de sangue por cima de uma negra, associada á morte e ao mau agoiro, onde imaginamos estar a criança que foi arrancada do ventre desta mulher. Ao lado da mulher na cama, encontra-se uma malga vulgarmente utilizada para mezinhas, neste caso possivelmente algo para as dores ou para prevenir infecções. Na cama encontram-se lençóis brancos imaculados que são sinal de pureza, do bem, contrastando com as paredes escuras de tons sombrios que retratam a tristeza, o pesar de tão vil acto como é o de matar uma criança ainda antes de ela ter nascido.
Estas mulheres não são apenas personagens passivas que se queixam da fatalidade de um mundo adverso, e não deixa de estar ambiguamente presente em vários destes rostos a força altiva de um olhar de determinação, de desafio e de dignidade, sublinhada nas cores vivas de um vestido ou de um lenço de cabeça. São retratos de sofrimento e angústia, de ansiedade, desolação, medo, humilhação e vergonha, feitos de uma violência contida, sem sangue nem gritos, com uma construção figurativa formalmente austera, sempre rigorosa e simples, que os traços precisos dos rostos, os espaços fechados e a estrita economia dos cenários tornam ainda mais realistas e pungentes. Entretanto, o que as reproduções reduzidas podem sugerir de ilustrativo nestas imagens, ganha no contacto directo com a pintura a escala de um confronto físico entre os corpos e olhares das figuras e os dos observadores, com uma intensidade quase insuportável.

