segunda-feira, 24 de maio de 2010

"O crime do padre Amaro" de Paula Rego



Liberdade de escolha ou acto desumano? Bom ou mau? Certo ou errado?

Estas são algumas das dúvidas que nos assombram quando falamos de um assunto deste género e importância.

Arte é arte, mas nem sempre se vê o que se passa nela. Um quadro não é apenas cores e forma, mas história. Há anos que, em Portugal, é evidente o sofrimento das mulheres: as ricas vão abortar ao estrangeiro, as pobres não podem. É inacreditável considerar criminosas mulheres que praticam um aborto. Há anos que, em Portugal, é evidente o sofrimento das mulheres: as ricas vão abortar ao estrangeiro, as pobres não podem. É inacreditável considerar criminosas mulheres que praticam um aborto.

As mulheres estão sobrecarregadíssimas: têm o seu emprego, a responsabilidade da gravidez e, depois, ainda são donas de casa. A questão do aborto insere-se em todo esse contexto violento.

Um aborto ou interrupção da gravidez é a remoção ou expulsão prematura de um embrião ou feto do útero, resultando na sua morte ou sendo por esta causada, isto pode ocorrer de forma espontânea ou artificial, provocando-se o fim da gestação, e consequentemente o fim da vida do feto, mediante técnicas médicas, cirúrgicas entre outras.

Através da história, o aborto foi provocado por vários métodos diferentes e seus aspectos morais, éticos, legais e religiosos são objecto de intenso debate em diversas partes do mundo.

É possível perceber no rosto desta mulher a dor, o sofrimento, a profunda tristeza após tão bárbaro acto. É visível uma bacia branca, sinal de pureza, toda manchada de sangue por cima de uma negra, associada á morte e ao mau agoiro, onde imaginamos estar a criança que foi arrancada do ventre desta mulher. Ao lado da mulher na cama, encontra-se uma malga vulgarmente utilizada para mezinhas, neste caso possivelmente algo para as dores ou para prevenir infecções. Na cama encontram-se lençóis brancos imaculados que são sinal de pureza, do bem, contrastando com as paredes escuras de tons sombrios que retratam a tristeza, o pesar de tão vil acto como é o de matar uma criança ainda antes de ela ter nascido.

Estas mulheres não são apenas personagens passivas que se queixam da fatalidade de um mundo adverso, e não deixa de estar ambiguamente presente em vários destes rostos a força altiva de um olhar de determinação, de desafio e de dignidade, sublinhada nas cores vivas de um vestido ou de um lenço de cabeça. São retratos de sofrimento e angústia, de ansiedade, desolação, medo, humilhação e vergonha, feitos de uma violência contida, sem sangue nem gritos, com uma construção figurativa formalmente austera, sempre rigorosa e simples, que os traços precisos dos rostos, os espaços fechados e a estrita economia dos cenários tornam ainda mais realistas e pungentes. Entretanto, o que as reproduções reduzidas podem sugerir de ilustrativo nestas imagens, ganha no contacto directo com a pintura a escala de um confronto físico entre os corpos e olhares das figuras e os dos observadores, com uma intensidade quase insuportável.

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